Foto: W. Quatman, Parque Nacional Chapada dos Veadeiros

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Ricardo Salles ignora e distorce fatos ao criticar reportagem da Folha

Ministro disse que fiscalização não foi suspensa, o que seus convidados e a verificação in loco negam

Matéria da Folha de S. Paulo

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ignora e distorce fatos ao criticar reportagem da Folha sobre a reunião com infratores ambientais e parlamentares acreanos para tratar da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes.

Em artigo publicado na quinta-feira (5), Salles contesta a apuração da reportagem segundo a qual após o encontro, realizado em Brasília no dia 6 de novembro, o Ministério do Meio Ambiente suspendeu a fiscalização na Resex.

O ministro Salles chamou a reportagem de “matéria sensacionalista, inverídica e que se parece mais com militância do que com jornalismo” e disse que “não houve nenhuma determinação nem sequer parecida como aventado na reportagem” para paralisar a ação fiscalizatória, a cargo do ICMBio.

A afirmação contradiz o que seus convidados disseram. Logo após o encontro, a deputada federal Mara Rocha (PSDB), que defende a redução da área da Resex, publicou em uma rede social: “Em primeiro lugar, o presidente do ICMBio se comprometeu a suspender, imediatamente, com as fiscalizações ostensivas”.

A reportagem obteve o mesmo relato em entrevista com o vereador Gessi Capelão (MDB), outro presente ao encontro. Ademais, a paralisação foi noticiada pela imprensa acreana sem sofrer contestação de Salles.

A suspensão também foi verificada in loco. Nos quatro dias dentro da Resex, a reportagem não encontrou nenhuma fiscalização. Moradores confirmaram que, desde o início de novembro, os agentes do ICMBio não apareceram mais.

Por outro lado, a reportagem flagrou a queima ilegal de uma área de floresta que havia sido embargada durante uma operação do ICMBio em outubro, no seringal Albracia, um dos que mais sofrem com desmate ilegal.

Queimada em área desmatada no seringal Albracia dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes em Xapuri, no dia 27 de novembro – Lalo de Almeida/Folhapress

A Resex Chico Mendes registrou neste ano um salto de 203% no desmatamento, um recorde tanto em aumento percentual como em área destruída, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Salles se absteve de explicar por que isso ocorreu em sua gestão.

Área desmatada na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes

Em seu texto, o ministro afirma que “receber bancadas de deputados e senadores faz parte do dia a dia de um ministro de Estado” e que os parlamentares “são livres para levar consigo seus apoiadores ou conterrâneos, bem como os pleitos que entendam relevantes”.

A reportagem não questiona esse direito, mas demonstrou que os participantes possuem um histórico de autuações e condenações na Justiça Federal por construção de estrada ilegal, desmatamento, grilagem e desrespeito a embargo de áreas. Estiveram na reunião cinco infratores ambientais na reunião, incluindo o autor de uma ameaça de morte gravada contra servidor do ICMBio.

Salles afirma também que a bancada do Acre quis relatar “o que consideram uma grande injustiça: centenas de pais de família que vivem dentro dos 900 mil hectares da Reserva Chico Mendes são obrigados a tirar seu sustento de uma atividade extrativista de castanhas de caju, borracha, açaí etc. —a qual não lhes dá recursos suficientes para viver dignamente.”

“Seu pleito é poder utilizar os 10% da área que a lei lhes permite para produzir gado de leite, café e piscicultura. Ou seja, nada de grave, mas apenas e tão somente algo que lhes forneça produtos para comercializar e agregar renda para si e suas famílias.”

Nenhum dos convidados pelos parlamentares que participaram da reunião, porém, é morador regular ou representa alguma associação concessionária da Resex. Quatro são pecuaristas que querem regularizar a sua própria situação e um é um ex-procurador-geral do Acre que quer legalizar uma estrada para retirar madeira de uma área suspeita de grilagem.

O pleito apresentado pela deputada Mara Rocha na reunião não é aprimorar a Resex, mas reduzi-la. Foi o que anunciou após a reunião: “A bancada irá preparar um documento conjunto, dirigido ao presidente da República, pedindo a mudança dos limites da reserva, tendo como base o projeto de lei de minha autoria”, escreveu, em sua página no Facebook.

Ainda que a reportagem não tenha tratado desse aspecto, outra correção: Salles citou de forma equivocada o plano de utilização da Resex, que prevê atividades complementares em até 10% da colocação (lotes familiares em seringais) desde que não ultrapassem 30 hectares.

Cumpre registrar que o Ministério do Meio Ambiente foi procurado três vezes por este repórter, mas não houve resposta. Essa é a praxe: dados obtidos pelo Observatório do Clima e por O Eco por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, de janeiro a setembro, 77% dos pedidos de jornalistas foram ignorados pela assessoria de comunicação de Salles.

Por fim, Salles erra ao dizer que a castanha-de-caju, produzida principalmente no Nordeste, é um produto da Resex Chico Mendes. Na Amazônia, extrai-se castanha-do-pará.

Fonte: Folha de São Paulo


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